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    Ensaio sobre Greta- a partir de Ivam Cabral

    Ela tinha vinte e três anos quando lhe perguntaram pela primeira vez qual era seu grande sonho. Ficou confusa, como se nunca tivesse pensado sobre isso antes, perdida, sem saber o que responder e logo despejou: Ser miss Pérola do Norte! Mas a resposta a atormentava mais que a própria pergunta, embora recebida com sorrisos, sabia que tudo era falso, os sorrisos e a resposta. Esse era o sonho de sua avó, por quem fora criada e que havia falecido há pouco. Será que esse se tornou meu sonho como forma de homenagear minha vozinha? Peguntou-se. Mas era tarde, as meninas se tornavam miss muito cedo e além disso nunca levou jeito pra tal coisa, era desengonçada, tinha o corpo largo e alguma coisa destoava no formato da sua boca, era meio dentuça, nem se quisesse realmente, poderia ter sido miss. Mas isso não importava sabia que havia dito isso apenas para se livrar de uma resposta ainda pior. A menina se deu conta que nunca tivera um sonho de verdade, talvez nunca a tivessem deixado sonhar, lembrou das repressões de seu pai, sempre lhe empurrando a realidade limitada que existia a sua volta. Começou a trabalhar muito cedo pra ajudar o pai e a avó em casa, não tinha tempo pra brincar com as amigas, teve apenas uma única boneca sua vida toda, mas isso não a incomodava, porque sua boneca Lila era muito ciumenta, que bom que não teve outras senão a briga ía ser feia! Fechou os olhos com força tentou se lembrar da Lila e de alguma conversa que pudesse ter tido com ela que lhe revelasse seu grande sonho. Nada! Nem com uma bicicleta tivera o direito de sonhar. Seu pai dizia que tinha que trabalhar muito pra comprar uma. Ora se trabalhasse muito, passaria muito tempo e só teria uma bicicleta depois de grande! A menina engasgou num choro preso e doído. Lembrou dos sonhos que tinha com a sua mãe.Sua morte precoce a permitiu sonhar sem limites de como seria a sua mãe, talvez esse tivesse sido o vôo mais alto que dera até então. Mas não se importava porque ela era a única das meninas que podia ter a mãe do jeitinho que imaginava. e ela era linda, gigantesca, os ombros largos puxara da mãe. Então ela pensou, um dia quero ser linda como a minha mãe. A menina sabia que aquele não podia ser o grande sonho dela, mas mais uma vez nem se importou e abriu um sorriso tão grande e lindo, ao mesmo tempo que sentiu um amor enorme dentro do seu coração, que aumentava a cada instante se transformando numa imensa felicidade. E como num sonho, mas não era, ela ouviu: Nunca é tarde para se ter um sonho minha filha! Sonhe muito! Nunca deixe de sonhar!



    Escrito por Carolina Angrisani às 23:23
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    Pensamento solto

      Naquela noite ela sentou determinada a escrever, e arriscou suas primeiras palavras, assim meio sem saber direito sobre o que escreveria, esperava uma espécie de espírito que a guiasse e a fizesse escrever coisas brilhantes, ou pelo menos interessantes. Logo percebeu que esse não seria o dia que finalmente isso aconteceria. Logo interrompeu a escrita e ascendeu um cigarro, os cigarros sempre ajudam nessas horas, pensou. Mas enquanto ascendia, relia suas primeiras palavras e ficou paralisada, era como se já tivesse as escrito antes, eu digo, aquelas frases, na exatidão de suas formas, tudo igual. Tentou buscar na memória em que texto poderia ter utilizado, aquelas frases, que outro dia, sentara daquela mesma maneira em busca de um texto que pudesse ser genial, continuou estática. Aquilo lhe era tão familiar, já não sabia se as palavras, as frases ou aquela sensação de se entregar ao papel sem saber direito o que esrever. Então deixou o lápis correr e continuou a dissertar sobre... sobre o que mesmo? Nem ela mesma sabia do que estava falando e qual era aquela sensação que já havia vivido antes mas não conseguia identificar qual era. Então largou o lápis e começou a pensar, ainda com o cigarro aceso, nAs repetições de sua vida, afinal aquilo tudo poderia ser um sinal que a levasse por esse caminho, pensou nas pessoas que conhecera desde que mudara pra cidade grande, sim, porque sua vida parecia ter começado a partir daquele dia, e suas repetições também. Antes não, era tudo muito simples, mas sigular, uma singularidade, que naquele momento lhe fez sentir uma saudade enorme de tudo que consderava pouco, mas que agora parecia muito, ou melhor tudo que vivera de verdade. Sentiu falta das gargalhadas com o pé descalço na terra, do ar quente e puro, das noites de luar com o céu estrelado, da sua família, dos amigos de infância, da banca de jornal, da pracinha central, do primeiro beijo... se pôs a chorar. Naquele dia ela percebeu o quanto tudo isso ainda fazia muito parte dela, então ela sorriu.



    Escrito por Carolina Angrisani às 23:01
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