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"Justine - Os Infortúnios da Virtude"(a obra) é a ovelha negra de Sade, podem acreditar. Justine (a personagem) é a mais virtuosa das pessoas, e claro que nos identificamos com sua virtuosidade, afinal quantos obstáculos enfrentamos em nosso dia a dia e mesmo assim passamos intactos por eles. A diferença é que Justine é uma personagem de ficção, portanto nunca, jamais escorrega em seus princípios e valores, mesmo quando não tem mais saída, afinal ela pode se permitir não ter saída, pois seu autor trata de tirá-la dessa para colocá-la numa pior. E nós continuamos nossas vidas com os mesmos questionamentos, angústias e observação sobre o mundo. É certo que às vezes cometemos deslizes, mas há de se levar em conta que somos de carne e osso, deixemos os atos heróicos para os seres inalcançáveis, como os personagens de Sade. Quero dizer que aqui Sade nos propõe um jogo inverso, pois são tantas as dificuldades enfrentadas por nossa heroína, que chegamos a desistir dela, vê-la como patética e uma espécie de negação surge dentro de nós, claro que não queremos ser "o bonzinho que sempre se dá mal na história", somos mais uma vez seduzidos pelas facilidades e poder que seus personagens malignos carregam. Mas Justine é doce, honesta, e de uma fidelidade indescritível a seus princípios, impossível não se deixar levar por seu comportamento tão humano, num mundo ficcional e real de desumanidades. Fazer parte do processo de Justine nos faz questionar até que ponto nossos princípios e valores valem à pena, e descobrir num segundo depois que só eles valem à pena, porque não somos nada, nem ninguém sem eles. E se nos sentimos muitas vezes como dentro de uma gaiola, é para que depois possamos voar bem mais alto. 
Escrito por Carolina Angrisani às 17:28
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